Numa linguagem popular, “utopia” significa “algo impossível”, irrealizável, fora da realidade, algo de pessoas ingênuas

A frase acima foi “pichada” nos muros da cidade de Paris-França, no ano de 1968, quando eclodiu a revolta dos estudantes universitários, conhecida como “Quartier Latin”: lutavam contra a proposta de reforma universitária do governo francês.

Ocorreu-me esse episódio de luta estudantil para refletir com o prezado leitor (a), acerca do clima de desânimo e “baixo astral” que baixou nos brasileiros, após a hecatombe alemã dos 7×1.

É próprio das utopias-políticas, socais, filosóficas ou religiosas, morrerem e, de tempos em tempos, renascerem “das cinzas”, qual nova “Fênix” grega.

Utopia é um termo grego, como sabemos, que significa “nenhum lugar” ou, ainda, “um não-lugar” (* grego: U+ topos); foi usado pelo humanista e filósofo inglês Thomas Morus (1478/1535), que, em um romance imaginou uma ilha chamada Utopia, cujos habitantes viviam felizes, a economia ia bem, a política estava em boas mãos, havia leis sábias, etc… igual a uma ilha da fantasia que conhecemos, nesta “terra brasilis”.
O ser humano não vive sem utopia, sonhos ou desejos; afinal, somos agentes da história humana- ativos ou passivos, cabe-nos escolher a vida ou a morte, a civilização ou a barbárie

É claro que o escritor da Utopia fazia uma crítica feroz ao sistema político vigente na Inglaterra, assim como, outros escritores também o fizeram: Campanella, em “A Cidade do Sol”; Francis bacon, em “ A Nova Atlântida” ou, o clássico e de leitura indispensável, “A República”, de Platão.

Numa linguagem popular, “utopia” significa “algo impossível”, irrealizável, fora da realidade, algo de pessoas ingênuas. Mas, em Ciência Política, utopia significa “ um lugar que pode existir”, embora no momento ou no contexto histórico-político em que se vive, as condições não permitam a sua plena realização. Ou seja, utopia é a concepção de um novo mundo, um novo sistema político-legal, uma nova “civilização”, em contraponto ao que existe.

Assim, a utopia é algo possível de realização. Isto porque, a utopia é um discurso racional, uma elaboração intelectual e estruturada; contrariamente, por exemplo, à ideologia- que é um discurso que visa justificar uma realidade, o status quo; a utopia busca um projeto alternativo de vida, de sociedade, de povo. Como bem lembra Leonardo Boff, “ a utopia é que impede o absurdo de tomar conta da História”.

A utopia é ainda o inconformismo com a ordem social e política que vivenciamos e não aprovamos. Nesse sentido, Karl Marx (Socialismo); Cristo (Cristianismo); Ghandi (pacifismo) e muitos outros vultos da história humana, foram essencialmente “utópicos”: o projeto de vida e de mundo de todos eles, de certa forma, se chocava com a realidade e, ainda, foram, em grande parte, realizados. Ou seja, a “utopia” de cada um, se tornou real, “o não lugar” ocupou seu espaço na história. O ser humano não vive sem utopia, sonhos ou desejos; afinal, somos agentes da história humana- ativos ou passivos, cabe-nos escolher a vida ou a morte, a civilização ou a barbárie.

A utopia transcende a realidade, persegue o “impossível”, descortina o futuro. Mas, utopia não é só discurso, é também ética, justiça e solidariedade.

Sem esses princípios, é demagogia política ou social, é engodo, é a barbárie; tipo nazismo, de Hitler. Austragésilo de Ataíde, intelectual e ex-presidente da Academia Brasileira de Letras, nos seus 98 anos de vida, dizia que, “ todo intelectual é um rebelde. Eu sou utópico”.

Não devemos nos esquecer que ele estava, em 1948, em Paris, na comissão que redigiu o Estatuto da ONU – outra utopia. Paulo, o Apóstolo do Gentios, escreve; “não vos conformeis com este século; mas transformai-o, com a renovação de vossa mente”. (Rom. 12:1). Nesses tempos bicudos, mais utópico, impossível.

AUREMÁCIO CARVALHO é advogado.

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